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quinta-feira, setembro 21, 2006

Escrever II


Escrever tem sido para mim um passatempo muito complicado, não sei bem expressar em letras aquilo que sinto, o bojo que pretendo dividir com recato. Realmente, brincar com as palavras requer amá-las e isso estou em todo sempre tentando aprender. Fico me sentindo pretencioso, fútil, piegas e, às vezes, blasé. Releio e descubro erros crassos, típico de quem faz o que não sabe, mas aprende-se e tenho tentado, arduamente. Agora mesmo estou sentindo algo que me parece nobre, que é rotina de poeta, e ele sabe lhe dizer e fazer com que pareça mais seu do que dele próprio. Ele se doa. Alias, é de todos. No meu caso, sentimentos se confundem e fundem-se e acabo por me desentender com certa constância sobre aquilo que digo e desdigo. No dia seguinte, olho-me e clamo por paciência. Em verdade, eu nunca tenho firmeza em dizer aqui o que gostaria de dizer para alguém, então fico a olhar cada linha e me cercar de imaginações que sempre resultam em quiproquós; sensações confusas que acabam em translatos ininteligíveis; sem um pingo de "sentido". Também acontece na busca daquela poesia perfeitamente contextualizada que queremos presentear alguém. Ficamos a garimpar algumas no google que, na falta de leitura, ocorre-lhes perdidas em sua própria prateleira de livros que servem mais de decoração que de utilidade. Mesmo que seu valor esteja no coração, a necessidade sufocante de traduzir o cerne disto para alguém são para aqueles que verdadeiramente amam. E eu ainda estou aprendendo, ao suor.

sábado, setembro 16, 2006

Conflito


Meu nariz dói, minha boca dói, meus olhos nem se fala... mas nada incomoda tanto como tudo aqui dentro. Ouço coisas que doem, e, volta e meia, de bobeira, escrutino os porquês das bobagens que me moem. Reajo e atinjo o taciturno que, não demorou, vangloriou-se. "Faço e não me arrependo, saia dessa, mané ética!" Refutei com um "vá lá!". Aonde ficam os outros? Aonde fica quem está perto de você? "Com alguns tostões compram-se até os corações mais vermelhos de maduros". E eu com meu murmúrio... "Não é a toa! Hoje vi gente, hoje vi pessoas, as que beijei, as que briguei, as que cantei e as que levei. E ai, eu me encaixo?". Entre isso tudo, entre histeria e megalomania, eu me mantive aqui a pensar nela e a me bater com a parede duvidando se sou gente. Ouvi coisas e pedi fuga. E na vontade do seu cheiro ou no refúgio de uma puta, via-me na vontade de ter... Não se diz o que não há, não se diz o que não vive.

quarta-feira, setembro 13, 2006

Ausência


Estou reaprendendo a me virar sozinho e a fazer, de mim para mim mesmo, uma boa companhia. Havia tempo não andava por ai, ainda vivo sempre com muitas pessoas ao lado e se não há, eu logo sinto o tédio da casa. Procuro alguém no MSN para conversar; ouvir música; tirá-las no violão; ou ler temas da antropologia. Depois de certo tempo mudei alguns hábitos. Percebi umas coisas que não sei se me fizeram bem, mas induziram-me a olhar no reflexo da vidraça o meu olho fosco e meu riso amarelo. Então, o que não costumava acontecer sobreveio como o verde no sertão. Recebi um conselho de que deveria ser menos "bonzinho" e evitar certas companhias; dissera-me que para eu achar o que procurava deveria andar um pouco só, nada de raves nem festas bombadas, ao menos por um tempo. Eu nem gosto de raves, o que andava fazendo lá? Pensei. Ela sabia das minhas quedas. Assim, passei a ir, em alguns finais de tarde, a uma praia sossegada no rio vermelho para ler um pouco, livros há meses abandonados. Noutras ia ao cinema, sozinho, e, logo após, ao Obá para contemplar sua vista fantástica da baía de todos os santos. Era um bar bem discreto na ladeira da barra. Vez ou outra ia também na cidade baixa, pisava os pés em Humaitá e ficava observando os ferryboats. A verdade é que a satisfação desses pequenos passatempos ainda não era satisfatória (com o perdão da redundância). Ela, quem me faltava, parecia não me querer tão bem quanto imaginava.

Compulsão


Meu desafio sempre foi escrever com muito sono...
Delirei, amanhã a gente conversa
boa noite!

segunda-feira, setembro 11, 2006

Anjo

Um moço se aproxima. "Posso conversar um pouco? Estou vendendo alguns anjos para ir à Itália". Liguei a figura do pequeno objeto de gesso ao vaticano e, logo após, aos seus concílios vários. Anjo - vaticano, enfim, reflexos que naquele momento eram estéreis e instantâneos. Não o delonguei, só queria olhá-lo, admirá-lo, perceber seu trabalho e sua história que, mesmo podendo ser ensaiada, parecia viva; um sonho insistente. "Posso fotografar você pintando o anjo?" E meio sem jeito e pacato, diz, "pode, mas qual seu interesse nisso?". "Talvez seja o mesmo que o seu". E sem hesitar o reproduzi, "estou pensando em ser fotógrafo". Ele sorriu e continuou a andar, trabalhando naquele sol escaldante pelo resto da vida. E com o mesmo sonho de sempre.

Desejo


Ao sair de casa costumo andar devagar com olhar desatento, na iminência de uma colisão que me recorda a trombada de esquina... ensimesmado. Abaixa, pega o papel e entrega o papel; olho no olho... Invadir-lhe-ia como um protagonista se não fossem as novas tecnologias; e a vida densa demais. Ocorreu-me a mente amarrotada de miudezas, as fantasias de criança, o que será? Quero, daqui a pouco, não mais, e assim vou ficando. Volto para casa e tomo café, fico no quarto, na varanda, na sala, e vagueio. Finjo que não quero mais, e volto novamente para a rua vagaroso, distraído, impendente e com um olhar inquieto na esperança de atracar-me subitamente com aquela mirada rutilante.

domingo, setembro 10, 2006

Fingimento


Danço em pensamentos
Canto em pensamentos
Gargalho em pensamentos

Alardeio em pensamentos
Na retina de quem me vê...
...excrementos.

terça-feira, setembro 05, 2006

Olho


Olho, o que há de tão misterioso em ti? Basta ser em si mesmo e já faz de uma fotografia uma fábula. Olhar de soslaio; olhar sem vergonha; olhar inocente; olhares que são capazes de dar um grito esvaecido. Há aqueles que lhe dão medo, assim como os que lhe deixam sem jeito. Quem não gosta de olhos não sabe sentir poesia, não sabe ver o encanto do mar, muito menos a aurora do dia. Não conhece o charme da amada, tampouco a solidão e a companhia. Esses são seus olhos.