Quinta-feira, Outubro 04, 2007

O gosto do cheiro

Há alguns dias, descobri, num texto científico sobre o perfume, algumas formas de sentir o mundo, as coisas e as pessoas através dos cheiros, isso me proporcionou um momento excepcional de conhecer alguns segredos que de mim fazem parte. Seria monótono se todos nós, num processo de degustação de bons vinhos, tivéssemos resultados similares de prazer ou desprazer em relação ao aroma, todavia, não depende simplesmente, da casta da uva e de todo o processo de produção. A região da amígdala e o hipotálamo, segundo o especialista, escondem um segredo maior e talvez, muito mais interessante, que é a capacidade do aroma de um bom vinho ativar, através dessas partes do sistema límbico, nossas percepções e seus significados mais íntimos. Psicoativo poderoso, esse tal vinho. E, como cada um de nós tem uma experiência de vida singular e parcialmente intransferível, o mágico resultado de uma boa degustação é absolutamente (ou quase?) solitário. O aroma ativará lembranças individuais, momentos marcantes, e por ai vai. Se isso fosse falso, todos os (ex-)amantes lembrariam de um detalhe dela como eu, caso degustassem o mesmo vinho naquela mesma ocasião? Porque o Malbec me acionou a imagem dela de imediato? Não entendo nada de vinhos, confesso, contudo, ao bebê-lo, senti o gosto do cheiro dela quando costumava apoiar a cabeça em seu ombro, eu adorava o seu cheiro que me deixava inculcado, se a fragrância era mesmo essência de sua pele ou era alguma mistura de outra coisa suave e indefinível. Não sei, isso é papo para um sommelier com pós-graduação em psicologia. Logo em seguida, no mesmo texto científico, identifiquei-me com a cortesia do mundo das mariposas. Outro argumento científico do texto. Eu nunca fui de me jogar, por inteiro, num amor improvável - embora haja exceções - sem ter um pouquinho de certeza daquilo que poderia vir de , sempre asseguro uma boa parcela do meu "eu lírico" em papéis de gavetas enquanto me atingem bombardeios de incertezas. Lembrei de uns versos por isso, "Toda luz espera na retina, imagem de espera pra formar. Todo som espera no ouvido, um meio de para se propagar".* E, por conta disso, descobri que eu pertencia (aliás, acredito que todos pertencemos, cada qual em sua parcela e independente de questões de gênero, claro.) em grande fatia do meu ser, ao reino simbólico das mariposas. “Entre as mariposas, a fêmea atrai os machos com o feromônio e depois são eles que secretam a substância para cortejar a fêmea” dizia o biólogo Arab no texto. Claro que ele me fez relembrar de uma pessoa por quem me apaixonei num passado recente (mesma do vinho) e das circunstâncias que levou meu corpo até a proximidade do corpo dela e que, vale frisar, não foi assim tão fácil. Mas, sempre fui meio atrapalhado, tão assim, que me vesti na roupa de um sapo e a degustei da forma errada. Como um falso enófilo que finge sentir o que não sente.

Imagem: © Buddy Mays/Corbis
*Lucas Santtana - A Natureza Espera.

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