Há
alguns dias, descobri, num
texto científico sobre o
perfume, algumas
formas de
sentir o
mundo, as
coisas e as pessoas através dos
cheiros, isso me proporcionou
um momento excepcional
de
conhecer alguns segredos que de
mim fazem
parte. Seria
monótono se
todos nós, num
processo de
degustação de
bons vinhos, tivéssemos
resultados similares de
prazer ou desprazer em relação ao
aroma,
todavia,
não depende
simplesmente, da
casta da
uva e de
todo o
processo de
produção. A região da
amígdala e o
hipotálamo, segundo o especialista, escondem
um segredo maior e
talvez,
muito mais interessante,
que é a
capacidade do
aroma de
um bom vinho ativar, através dessas partes do sistema límbico, nossas
percepções e
seus significados mais íntimos. Psicoativo poderoso, esse tal vinho. E,
como cada um de
nós tem uma
experiência de
vida singular e
parcialmente intransferível, o mágico
resultado de uma boa
degustação é
absolutamente (ou quase?) solitário. O
aroma ativará
lembranças individuais,
momentos marcantes, e por ai vai. Se
isso fosse
falso,
todos os (ex-)
amantes lembrariam de um detalhe dela
como eu, caso degustassem o
mesmo vinho naquela
mesma ocasião?
Porque o
Malbec me acionou a
imagem dela de
imediato? Não entendo nada de vinhos, confesso, contudo, ao bebê-lo, senti o gosto do
cheiro dela
quando costumava
apoiar a
cabeça em seu ombro,
eu adorava o
seu cheiro que me deixava inculcado, se a fragrância
era mesmo essência de
sua pele ou era alguma mistura de outra coisa
suave e
indefinível. Não sei,
isso é
papo para um sommelier com pós-graduação em psicologia. Logo em seguida, no
mesmo texto científico, identifiquei-me
com a
cortesia do
mundo das
mariposas. Outro argumento científico do texto.
Eu nunca fui de me jogar,
por inteiro, num
amor improvável -
embora haja
exceções -
sem ter um pouquinho de certeza daquilo
que poderia vir de
lá,
sempre asseguro uma
boa parcela d
o meu "eu lírico"
em papéis de gavetas
enquanto me atingem bombardeios de
incertezas. Lembrei de uns
versos por isso, "
Toda luz espera na
retina,
imagem de
lá espera pra formar.
Todo som espera no
ouvido,
um meio de
lá para se
propagar".* E, por conta disso, descobri
que eu pertencia (aliás, acredito que todos pertencemos, cada qual em sua parcela e independente de questões de gênero, claro.)
em grande fatia do
meu ser, ao
reino simbólico das
mariposas. “
Entre as
mariposas, a
fêmea atrai os
machos com o feromônio e
depois são eles que secretam a
substância para cortejar a
fêmea” dizia o
biólogo Arab no texto.
Claro que ele me fez
relembrar de uma
pessoa por quem me apaixonei num
passado recente (mesma do vinho) e das
circunstâncias que levou
meu corpo até a
proximidade do
corpo dela e
que, vale frisar,
não foi
assim tão fácil.
Mas, sempre fui
meio atrapalhado,
tão assim,
que me vesti na
roupa de
um sapo e a degustei da forma errada. Como um falso enófilo que finge sentir o que não sente.
Imagem: © Buddy Mays/Corbis
*Lucas Santtana - A Natureza Espera.
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