Sexta-feira, Novembro 30, 2007

O sonho de ontem


Fábio não tem um minuto sequer de silêncio quando está sozinho em casa. O pensamento fala, gesticula, não se reduz a uma modesta palavra. Diz coisas que ele deveria fazer, questiona se o agora vale alguma coisa e o que será dele no dia de amanhã. Ele não pára. Quanto mais se pede sossego, mais o devaneio grita e se estrebucha pedindo toda ou qualquer atenção.

- Eu só quero respirar...
- Em cada inspiração uma expiração em palavras, eu quero que você se comporte assim e nada menos. Vai lembrar do que quero porque são coisas que não acabaram, só estão em suspensão e cá estou para te ajudar.
- Vá encher o saco de outro, pare de atazanar o meu juízo.

Fábio deita-se à cama e cerra os olhos. Mas lá está ele insistindo na penumbra sem deixar fitar teu rosto misterioso, se é que o tenha. Fábio, com esmero, tenta fitá-lo na imaginação. Sem sucesso. O ser que fala não olha. O ser abstrato cospe uma saliva seca de quem pouco bebe água e gesticula reticente, proclamando sugestões num tom de que pouco se importa com a tranqüilidade alheia. O ser opaco sente-se confiável como se portasse um oráculo. E Fábio, inquieto e trêmulo, após ouví-lo, interrompe, já sem paciência.

- Você fala, fala e não diz nada, além de tudo é disléxico. Nem sabe se realmente quer me dizer...
- Eu sei bem o que quero, quero te deixar confuso. Eu me divirto com isto e sei bem o que te incomoda. São exatamente as construções vazias que você faz de si mesmo.
- Então prossiga e cuspa coisas feito canhão, dê-me alívio porque não tomo mais ansiolítico.

E disse... o pensamento de Fábio discorreu - como se estivesse num púlpito - sobre coisas que ora o incomodavam, ora despertava a saudade... Sem pestanejar, o sonho delirante foi embora anunciando um breve retorno! Horas depois Fábio acordou, escovou os dentes, tomou seu café apressado e foi para a escola preocupado com a prova de matemática. Não se lembrava mais do sonho... Nem da saudade que se foi. Se bem que eu, enquanto narrador onisciente, nem admito tanta segurança, ainda acho que Fábio sente saudade dela sim, e acho que ainda se sente confuso como este sonho reduzido a mini conto sem razão. Reduzido a uma paranóia delirante.

imagem: Cleaning and Dressing Up by Cao Jingen

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