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quinta-feira, abril 26, 2007

Pausa para Maupassant


"Amo a noite, de paixão. Amo-a como se ama o seu país ou sua amante, de um amor instintivo, profundo, invencível. Amo-a com todos os meus sentidos, com meus olhos que a vêem, com meu olfato que a respira, com meus ouvidos que escutam seu silêncio, com toda a minha carne, que as trevas acariciam. (...)
O dia me cansa e me aborrece. Ele é bruto e barulhento. Levanto-me a custo, visto-me com lassidão, saio com pesar e cada passo, cada movimento, cada gesto, cada palavra, cada pensamento me cansa como se eu erguesse um fardo esmagador.
Mas quando baixa o sol, uma alegria confusa, uma alegria me invade todo o corpo. Desperto e me animo. À medida em que aumenta a sombra, sinto-me outro, mais jovem, mais forte, mais alerta, mais feliz. (...)
Então sinto vontade de gritar de prazer como os pássaros noturnos, de correr sobre os telhados como os gatos; e um impetuoso, um invencível desejo de amar se acende em minhas veias."

A Noite 
Guy de Maupassant (1850-1893)


sexta-feira, abril 20, 2007

Palimpsestos



Alguns se vão, outros haverão de aparecer, como numa leve dança de teatro contínuo. O tempo não admite alegorias reversas e a memória não admite porvir. Triste momento inevitável de conteúdos deletérios ou, quem sabe, reescritos compulsivamente para questionar uma dor já em suma fragilidade. Ergo meu baluarte como me convêm. As palavras combinadas são infindáveis, enquanto as coisas se delimitam num escopo de experiências dicotômicas, malditas e benditas. Minha pele torna-se enrijecida pela amargura de tantas tempestades e carrego comigo as cicatrizes que apagam e reescrevem minhas intempéries de juventude, de repulsas e volúpias. Recordo-me daquela que vira - num pretérito mais que perfeito - e só vejo outras que, cedo ou tarde, não mais me lembrarão. Olharei para o espelho e, vagamente, saudarei com saúde aquela que num dia, manteve-se a anular por tanto tempo a minha lancinante solidão.


quinta-feira, abril 19, 2007

Horizontes



Há pouco, medo. E hoje? Paz. Algum tipo de paz... Não me preocupo com nada, nem com meus desarranjos que ainda se fazem tão presentes. Persistem, insistem... Só você pode resolver o que te acomete, ninguém mais, sussurra baixinho. Muito menos seus remédios, eles não servem para nada. Alguns pensamentos indisciplinados teimam em me assustar enquanto sua mão delgada abranda meu rosto oleoso; questiona meu olhar irrequieto, remoto. Procura algo no horizonte? Eis o que me falta.


segunda-feira, abril 16, 2007

Status


Um diz, "Mutantes e Rosa Sônica foi demais!!" O outro logo abaixo grita, "Estou em Buenos Aires!!" Mais adiante um outro afoito conclama silenciosamente, "Wo! I feel good, I knew that I would". O redundante sentindo-se na penumbra avisa, "Você me encara de frente?" Já uma sábia reticente enaltece sua forjada sabedoria, "O melhor da vida é que ela é pra ser vivida..." Os mais orgulhosos e interventores são os viajantes que não se satisfariam tanto com seus tickets - alguns até fotografam seus papéis de passagem - se não pudessem mostrar a todos que são pessoas bastante viajadas, experientes à beça, modernas e antiprovincianas, já pensou que coisa mais cafona viver a vida inteira sem conhecer o glamour dos outros lugares? Podiam recuperar o hábito de descrição densa dos viajantes de séculos passados... "Estou em São Paulo", "Estou em Paris", "Estou no Rio de Janeiro", "Londres... Itália..." Será que me aparecerá algum dia um intrépido "estou em Curralinho"? Já vi até alguém esbaforir ensandecidamente: "A Europa é linda, todos deviam conhecer!" Acho que o mundo fez perecer seu último miolo. Meu programa de mensagens instantâneas é tão moderno, tão Belle Époque, tão auto-informativo, parece uma revista de fofoca escrita pelos próprios fofocados. Todo mundo, no fundo, quer ser gentleman/lady e conseguir seu dia de glória com os paparazzi print-screen, nem que seja por frases de efeitos e gostos musicais. Todo mundo, nesse sentido, morreria desgostoso se soubesse não ter um único fã para prestigiá-lo, noite e dia, no balcão da taberna mais próxima. De preferência, reciprocando a música "Eu sou melhor que você" em volume ambiente.



quarta-feira, abril 04, 2007

Ambiguidade


Com a casca, sou vaidoso em apresentar-me naquilo que de fato não sou, conquanto não tenha ambição em fazer disto horizonte de honrarias. Não represento ensejando um status ou um pretensioso respeito. Não sou tão idiota, embora, costumeiro, deixe no ar alguma dúvida. Não atua o personagem para ocultar um ar sem graça, atua porque você me quer bem e eu também te quero muito bem. Não quero dissimular nem lhe encher de aleivosias, só quero me esconder de seu desencanto. Longe de mim acabar com a sua ambiguidade, muito menos com a minha.