Segunda-feira, Agosto 13, 2007

Noite inusitada

Achou aquela agenda e tinha um número interessante de uma amiga das antigas. Resolveu ligar.

- Alô?
- Vamos tomar um café?
- Como?
- Sou eu, Márcio. Ainda lembra?
- Meus Deus! Claro, onde você está?! Vamos sim, quero te rever.
- Passo ai em meia hora, não mais que isso.
Era uma quarta-feira qualquer, mas não para ele. Era o dia dela e da vontade inadiável de revê-la. Mesma data em que ele a conheceu quando resolveu adentrar de penetra numa festa qualquer com amigos. Chegou ao cantinho onde ela se esconde e deu um toquinho com o celular, pouco tempo depois ela chegou e entrou no carro com a mesma beleza que havia saido anos antes. O mesmo sorriso também. Ele logo sentiu a fragrância de um perfume interessante e pensou alto.
- Ai tem coisa!
- Como?
- Nada...
Abraçaram-se e como ali tinha coisa, segundo suas intenções, não se envergonhou em beijá-la o mais próximo da boca, e ela deixou, em silêncio, olhando imediatamente para o outro lado, de modo a evitá-lo aos olhos para não entregar-lhe de bandeja uma malícia que era para mais tarde. E ele não descuidou. Após uma rápida conversa introdutória... ela estava sozinha e ele também.
- Então, que bom te ver! Enquanto a gente não acha os nossos, vamos tomar este café aonde? De repente, lá a gente arranja.
- Com você, eu prefiro outra bebida.
Pediu para perder a elegância:
- Cerveja?
- Você não muda mesmo... Vamos!
E foram... Não tardaram em começar pelo avesso exatamente como se conheceram, entregaram-se ao primeiro olhar quando chegaram a um barzinho na mouraria. Sentaram, olharam-se e sorriram mascaradamente.
- A gente não muda mesmo.
- É minha amiga...
E as bocas se encontraram em sutil toque e com vontade de riso daquela situação que para eles parecia perfeita. E era... somente dois amigos infanto-juvenis que destrambelharam-se a falar abobrinhas pelo resto da noite e esquecer, ao menos ali, de outros problemas morais.

Quinta-feira, Agosto 09, 2007

O céu e o mar

Foi dormir em vão como em todas as outras noites desde que a conhecera. havia passado vários anos e sua altura não era tão bela, seu rosto não se apresentava tão polido e sua visão se ofuscava diante de tanta claridade. O cansaço lhe tremia os pés. Podia não ser mais o mesmo para se lembrar de muitas coisas que um dia lhe clamou por atenção, entretanto, uma em particular permanecia intocável em sua enfraquecida memória, como a peça rara de um obcecado colecionador.

Este sentimento era o mesmo desde que havia sido reconhecido, diante da multidão, num rutilante encontro de olhar advindo de um majestoso sorriso delicado. Era ela, era ele e mais ninguém em todo aquele ruído infernal. Tantos anos se passaram e em sua fatigada velhice este pensamento fotográfico de juventude insistia em vir à tona momentos antes de dormir. Todos os dias. E levantava novamente para beber um pouco d'água enquanto respirava o ar da madrugada taciturna, questionando-se sobre onde ela haveria de estar, com quais companhias e se estaria feliz. Adoraria revê-la para saber de tudo isto.

Sem respostas, sempre voltava para a cama frustrado e atropelado pela nova realidade que compunha o seu viver, a longa distância que o mundo do trabalho impunha entre os dois. Ele nunca se realizou, por não ter tido força em arrancar da garganta tudo aquilo que ele segurou e que não era dele... Eram dela aquelas lindas palavras estupidamente censuradas. Era, definitivamente, um lasso por excelência e merecia o que passava, diriam muitos que o conhecera, e com razão. Este homem envelhecido se amenizava sempre que freqüentava o mar, fosse dia ou fosse noite, pensando em como ele havia se rarefeito numa absurda insistência de juntar o ilusório encontro entre o céu e o mar. E ao retornar para casa tornava-se leve, tanto quanto as diminutas nuvens, quando conseguia o ansiado sono ao descansar a face no travesseiro.