
Não olha para ele, tão pouco o herói deseja que assim seja. Solta palavras indomesticáveis na presença dela; ecoa-te letras aparentemente adocicadas, aliás, aparência não, são doces sim. Excede-se no sincero, embora desajeitado. Não sabe o que deve dizer, e balbucia, gagueja e se silencia. O problema é que com tanta fineza ele se passa invisível, como uma pessoa qualquer; com exagerada pitada de sem-graça. Ela nem nota este herói de óculos velhos - uma das pernas sustentadas por durepox - e caminhar desengonçado e, deveras, só sorriso amarelo. Ora considerado enjoativo e sem bom efeito algum, ora aparentado até um pouquinho divertido. Só um tantinho. Às vezes, o herói finge-se bem, para não revelar-se desabado e desastrado; é até contraditório, só dança quando está excedido em triste. Ela nem nota, claro. Não vem ao caso. Herói de corpo diminuto, encolhido em monótono segredo. Sempre acha que no dia anterior falou bobagem para quem chegou perto. Quando a coragem prevalece ele sai da rotina, tenta diferente. Certo dia, sentado em riste e confiante do conteúdo a nascer da ponta da sua língua, ao lado dela na volta para casa, no assento do ônibus, lança-lhe uma. Surpresa! Desplatonizou a garota. Doce cantada, mesmo que ultrajante e derrotada.
- Cresça e apareça. Ela mudou de lugar. E o durepox cedeu no calor que lhe fez esse dia.
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*Obra de arte: "Forma latente" por Katia Spagnol.
- Cresça e apareça. Ela mudou de lugar. E o durepox cedeu no calor que lhe fez esse dia.
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*Obra de arte: "Forma latente" por Katia Spagnol.
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