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- Você viu
como ele te olhava,
Ana?
- Não quis, até confesso que foi desagradável dar-me conta de que me apreciava daquele jeito. Acaba me repelindo na maneira como me olha.
- Não diga uma barbaridade destas, ele é um rapaz legal.
- Só se for para você.
Voltando para casa, feliz da vida, João comentava para um amigo de Ana, tanto quanto seu, que ela parecia ter retribuído seu olhar naquela roda de violão. Cara, definitivamente, não sei chegar, sei lá! O que dizer de agradável a uma menina de gosto tão apreciável, de jeito tão delicado, você viu como ela sorria a cada verso daquele cara lá? - Era Vinícius de Moraes, cara. Uma canção chamada samba da benção. Enfim, confesso que não percebi, como deveria, o conteúdo dos versos. Mas você percebeu que ela é linda... João, ela é bonita sim, mas cuidado, ela é bem pernóstica e talvez não te ache tão prazeroso. Você parece que fica besta, meio infantil, nestas situações, e isso não combina com você, espero que já saiba disto. Será?
- Mas, Ana, tudo bem que ele não seja contemplado pelo seu "bom gosto" mas tudo nessa vida é uma questão de aprendizado, de escolher os lugares certos, a companhia das pessoas, ditas, bacanas. Ninguém nasce lendo Sartre, admirando Drummond, ninguém nasce entendendo Baden Powell.
- Não me venha com essa baboseira, Karina. Porque tanto interesse em me convencer de que posso permiti-lo? Ele parece, sim, uma pessoa bacana, mas não suporto o seu jeito de falsa argúcia, seu jeito desinteressado pelas coisas. E, sabe de uma? Ele tem o olhar meio de doido...
João era um rapaz de falsa aparência, era o que diziam por ai às suas sombras. Falava demais, quando bêbado, e mostrava seu universo em pequenez quando sóbrio, era dominado por uma rotina de vícios que pouco o revelava um sujeito simpático e interessante. Havia momentos em que as pessoas tinham medo, era compulsivo, queria tudo de uma vez e acabava doente por conta de alguns exageros.
- Então, e agora o que vamos fazer?
- Não sei, o que você sugere?
- Vamos passar no Póstudo que eu quero te falar algumas coisas.
No fundo, Eduardo já sabia da velha ladainha de João. Passaríamos o resto da noite bebendo, e eu... ouvindo, certamente, a mesma lamentação de sempre de um cara que ama, ama de verdade, com a mesma sinceridade com que os homens planejam os deuses: sem a atitude de transformar o mundo por si. Sinceramente, não tinha mais paciência em ouvir aquela mesma conversa, era meu amigo, eu sei, mas não queria mais, sei que ele não se esforça o bastante. Quantas vezes tentei ajudá-lo? Eduardo resistiu a perder tempo no Pós e foram embora.
Mesmo desapontado com a recusa, João aceitou ir para casa. Chegou, tomou um banho e foi para o seu lugar predileto. A biblioteca. Começou a ler ao som ambiente de ‘Love Supreme’, um clássico do Jazz do qual sempre fez pouco caso, nunca foi tão 'aprecia-dor-de-Jazz' e, de fato, nada entende, mas ouvia uma vez ou outra. Na vigésima página já estava disperso pela conversa virtual no computador que estava ligado diante dele - nestes softwares para diálogo raso e instantâneo, como miojo sem graça - com uma amiga a quem sempre lhe contava confidências de amor, além de algumas banalidades. Essa tinha paciência, lançava ousados palpites e lhe contava os seus casos, também. A conversa fluía como a de bons amigos da infância.
- O que ela lhe disse?
- João, vá com calma que talvez você consiga. Eu já te falei que não falo destas coisas a ela, você precisa conquistar o que mais quer sem a ajuda dos outros, imponha um fim a estas suas barreiras bobas, a seu pessimismo injustificável, pensa que não sei que você é um frouxo?
No fundo, Dominique já sabia que a coisa estava difícil, João não era dos mais significantes para a futura dondoca. E, além deste impasse, alimentava uma paixão platônica por ele, era isso que a compelia em não revelar nada, ou melhor, o bastante a Ana. Ela sabia manipular a situação com tamanha sutileza que tudo permanecia a passos lentos, quase inertes. Em alguns momentos de perceptível fragilidade e impaciência de João, tentava encorajá-lo a arriscar futuro melhor. Não conseguia mas persistia.
- Amanhã a encontro na sala de arte da aliança francesa, você pode aparecer de surpresa sob algum pretexto. Tomaremos um café antes do filme. Parecerá um bom momento para ela conhecer seus reais propósitos.
- Você é, realmente, uma amiga-irmã de verdade! Combinado.
Dominique sentiu raiva, mas havia se comprometido em demonstrar-se amiga fiel. Contra todos os seus desejos, aceitava a sua condição de amiga-irmã. Era como João a titulava, sem perceber o mal-estar que, involuntariamente, lhe causava. No dia seguinte, lá estavam eles saboreando um bom capuccino enquanto opinavam sobre cinema indiano da não tão conhecida Bollywood; sobre quem tinha assistido o quê num tom de diálogo de bons entendedores, numa quase irresistível necessidade de demonstrar que tinha domínio sobre as tantas maravilhas do universo cinematográfico oriental. E João, claro, neste momento, enchendo-se de regozijo em estar ao lado daquela menina que ele amava calado, e sem participar de suas opiniões. Na verdade, achava-a bonita, também, pelo seu jeito nada sutil em demonstrar-se uma pessoa que admira o “bom” teatro, o “bom” cinema, o “bom” livro, a “boa” música, acusando-se em certas platitudes acidentais, digamos assim, aquilo que realmente era, com todas as suas possíveis fronteiras demarcadas pela duvidosa opinião: acima de tudo, uma vaidosa. Ele não conseguia perceber nela o que para os outros havia de ser mais marcante, a pernosticidade. Muitos a detestavam, embora, no fundo, muitos destes também fossem detestáveis em demasia, cada qual à sua maneira. E, João? Também. Perceba: Resolveu participar da conversa para não parecer desinteressado ou inculto, embora o fosse.
- Vocês gostam de filme americano?
- Eu gosto de cinema de arte.
- Sei, senão, estaria no multiplex e não aqui numa sala de arte, não é verdade? Não que lá não tenha arte, mas aqui parece ser mais abundante, não é? Além do quê, a pessoa que aqui freqüenta, mesmo não sendo, passa-se facilmente por atrativo.
Ana, Sorriu:
- Radicalismo demais, eu acho. Meio amargo sem necessidade alguma...
E gostou cada vez menos dele. Sentiu que era ela a quem ele se referia com aquelas palavras indóceis que, em entrelinhas, era uma mensagem de amor. Contraditório, mas era.
- ...Mas não agora. Eu não entendo muito deste "mercado cultural" em que estamos imersos, tudo bem que eu não conheça tanta coisa e que tenha, entre nós, que demonstrar, na maior parte das vezes, que absorvo muita "cultura" e não, o contrário, que careço de. Para nós, parece que esta estratégia de convivência ainda é a mais interessante em tempos de efemeridades, senão, não suportariamos tanto isolamento nestes bairros que ora estamos. Está vendo aquele ator ali? O que você acha dele? Acho que já ouvi você dizer que ele é o melhor ator daqui de Salvador...
- Sim, eu o acho excelente, admirável, o que há demais nisso?
- Os critérios, todo mundo é atraente em alguma coisa e repulsiva em outras, neste caso, a avaliação depende de para qual lado a gente olha mais. Você pode passar a desconfiar de que o comportamento dele, publicamente, fora dos palcos, é para conseguir alguma coisa; uma outra encenação. Que o que ele faz tem um segundo interesse - perceba que se há um segundo interesse, o primeiro já se acusa falseador, uma máscara social anteposta - e não porque ele, por natureza, é daquele jeito. Neste sentido, perco a admiração quando o encenador entra em evidência demais fora do palco, para alguns distraídos o seu embuste ainda permanece imperceptível e é ai que ele tem sucesso nos seus quereres. Só foi para dizer que eu não gosto deste ator por conta disto. Bobagem. (risos)
E essa conversa, chata e indigesta, transcorreu por mais alguns minutos até despedirem-se no auge da paciência e do constrangimento. Pagaram a conta dos cafés e foram embora, cada qual, com sua perplexidade. Nem filme assistiram mais. João não suportava, mas sentia necessidade de falar de coisas que só são discutíveis em ambientes de “negociação”. Ana, Também. Dominique? Evidentemente. Todos se protegiam e, no ambiente de descontração, também se aborreciam. Ele gostava mesmo é de falar bobagens, Ana de cinema - mesmo que presumida - e Dominique... Talvez gostasse de ouvir bobaginhas convenientes, como as coadjuvadas nesta conversa a três em um café. João não conquistaria Ana em seu mundo se não falasse a ela as coisas que Dominique não gosta de ouvir e acabou, enfim, por cantar bela canção em seu ouvido. Enquanto as duas retornavam a passos módicos para casa:
- E ai, o que achou?
- A polêmica que provocou me agradou, mas é pedante e inclinou-se demais para um tom que aborrece.
- Como? Se bem que... Presumo que ele tenha um quê de insolência mesmo, sustenta um semblante de quem se acha, de quem está cheio de virtudes...
- Não, eu não quero nem conta, só a amizade já me é suportavelmente suficiente. Ele nem demonstrou interesse por mim, nos modos que eu esperava.
- É isso ai, amiga!
...E Dominique sorriu o
sorriso mais estranho desde que a conhecera. Pensou,
Ana.
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*Obra de arte: "Forma Esfuziante" por Katia Spagnol.
1 comentários:
fiz comentários nos textos lá de baixo. desde já ameaço:não apague, estão escondidos, passados.
não li esse, tive preguiça.
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