
Gostava de escrever, aliás, ainda gosto, muito embora tenha perdido boa parte da razoável qualidade na sintaxe, léxico e prosódia que aprendi em anos de reforço escolar. Sim, nunca fui bom aprendiz em nada. Jamais experimentei a sensação de ser um bom exemplo, e isso pouco me importa. Hoje, tive que recorrer a uma revista para relembrar o que (re)significam esses elementos (prosódia...) nos estudos gramaticais. Meses antes, saberia sem ter que me assegurar em algum alfarrábio normativo. Esforço-me para lembrar as antigas veredas, as quais proporcionavam-me as ferramentas ou o atlas para atingir uma boa representação das coisas mais belas. Escrevia bem, diziam. Não eruditamente, não gosto. Digo, de forma bela, simples e agradável de ler. Escrevia um tiquinho do meu sentimento, daquilo que gostava de processar num momento de solitude qualquer, ou nas simples distrações das aulas "chatas", enquanto outros colegas processavam outros potenciais talentos, como desenhar. Lembro de um colega, antigo companheiro de banda que, hoje, desenha na pele das pessoas e recebe uma quantia por isso, algumas pessoas gostam e fazem do próprio corpo o seu caderno, o seu painel. Assim, seus papéis saem da mochila para tomar as ruas, numa dança dinâmica que deve surpreender, constantemente, o próprio autor, que vê sua arte, de repente, passando do outro lado da rua, exposta na praia e em tantos cantos da urbis, sem fixar-se em um lugar. O avesso de boa parte dos grandes artistas plásticos que têm que pagar, e muito, por um tradicional painel para concretizar a sua vontade de criação. E o agradável disso, do universo do meu colega, é que levam sua arte em si, até o fim da vida. Fico feliz por ele, que sabe produzir uma boa, visível e das mais reconhecíveis artes urbanas dos tempos modernos. Em relação à minha escritura, desde aquelas distrações na aula, gostava de registrar pensamentos, tentando concretiza-los como os grandes poetas e romancistas, sobre as coisas mais belas, nada mais. Difícil e suada tarefa. Não pensava em ser um deles, assim como, ainda, não penso. Aliás, pergunto-me, o que é ser poeta? Se fosse uma coisa qualquer talvez pudesse sê-lo. No entanto, não sei se produzirei em mim, a disposição de alimentar uma necessidade de (auto)publicação num dia além, nunca se sabe, e as pessoas nunca são exatamente, aquilo que foram um dia aquém. Por enquanto, fico aqui, no meu escrevinhar, insistindo, ao menos, em me fazer bem... Mesmo que cometendo deslizes gramaticais e vitais como antigamente.
Arte exposta: "Forma Sutil" por Katia Spagnol.
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