Quinta-feira, Janeiro 10, 2008

O presente

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Ouvir narrativas sobre desamores dos outros é a condição propícia para debruçar-se em uma lembrança inconveniente. Paulinho ao ouvir os contos de amigos em mesa de bar sobre armações e traições de pretéritas paixões, logo se dispersa naquilo que a in-esquecível lhe fez – o prefixo persiste. Quando termina de escutar, em falsa aparência, a história do amigo ao lado, finge que tudo entendeu em gestos de lamentação. Quão constrangedora é esta situação, e quão tatuada é a polêmica de outrora, que surge provocando este imbróglio que ele nunca revela a ninguém. Em tese, esse silêncio é uma tentativa de esquecer o que passou, mas está sempre ali, cravado na memória, emergindo sempre que experimenta histórias semelhantes de amores jamais correspondidos. O disfarce a mesa é tanto que aprendeu uma técnica de "ouvir" e responder com gestos faciais correspondentes ao que certos momentos da narrativa exigem da emoção, dando assim, um falso sinal de que tudo ouve, de que tudo compreende. Isto porque no meio da história de desilusão compartilhada, estaria perdido em seu intempestivo retorno ao passado.

Era o dia da festa de 15 anos de uma amiga sua, Paulinho havia decidido não ir, por efeito dos insistentes atos de desprezos que tinha sofrido de sua estimável amada nas prévias deste aniversário. Não suportaria uma indesejável invisibilidade numa festa em que todos, nesta idade, como se numa doce quimera, almejassem alguma espécie fantástica de amor encantado transbordando-se em tipo ideal. Quase todos, nestas ocasiões, se olham com segundas intenções, todos vestem suas melhores roupas e isto é uma evidência. Ele queria ser o alvo dos olhos grandes de Gabriela, embora ela nem um pouco de atenção lhe ofertasse. Paulinho havia inventado uma dor de cabeça alegando, por extensão, não ter comprado um presente para a amiga, e resolveu ficar em casa trancafiado por puro medo de vê-la com outro. que achava não ter chance alguma, preferia não ir a ter que vê-la aos abraços com qualquer vencedor de roupa nova. Todos compreenderam sua ausência – Gabriela, ao que parece, tambémmas algumas horas antes de começar a festa, toca a campainha e ele atende. Tomou um susto que tratou logo de disfarçar, ela estava ali em sua frente com um presente em mãos pronta a pedi-lo em súplicas que fosse ao aniversário. Caso o problema fosse a falta de dádiva, ela havia resolvido. A dor de cabeça que nunca existiu desapareceu como mágica. Tomou-lhe o presente das mãos na maior alegria e deu-lhe um abraço. “Eu irei, por você”, pensou...

Vestiu-se com sua melhor roupa, perfumou-se bem, e saiu com equivalente alegria de um soldado, coagido a guerra, que retorna vivo para reencontrar saudosa companheira. Foi ao aniversário em companhia de um primo de outra cidade que chegou para visitá-lo. A festa estava boa, muita bebida, comida e músicas dançantes. Paulinho estava irradiante e ansioso, claro, pela chegada de Gabriela que naquele dia usaria, evidentemente, o seu melhor perfume e, não diferente de todos, sua melhor roupa. Enquanto conversava com alguns amigos, olhava inquieto para a porta de entrada até ela aparecer com uma beleza estonteadora de frágeis corações. Assim que chegou, silenciou boa parte dos vulgares meninos presentes que conversavam em grupos sobre estratégias baratas de conquistas sexuais. Ele suou frio e não conseguiu ocultar suave disritmia, seu primo logo apontou:

- Vá , não se preocupe comigo. Eu conheci boa parte de seus amigos e vou aproveitar para dar uma volta e conhecê-los mais um pouco.

- Certo, volto logo. Vou falar com ela senão enlouqueço com tanta ansiedade.

Foi ensaiando o que dizer porque estava apreensivo em demasia, acusava a leve tremedeira nas gélidas mãos. Era amor? Era amor à primeira vista. Nunca tinha sentido tanto sentimento explodindo-lhe de uma vez o tórax assim que se mudou para o novo condomínio. Estava conhecendo os novos vizinhos e de repente, entre eles, avistou-a passeando com seu cachorrinho há uns cem metros de distância. Ali o mundo tinha se acabado, menos ele e ela. A sensação foi de que o corpo tinha levado uma descarga elétrica de um segundo apenas, mas que seria de efeito transformador, agradável e de longos anos. Assim que se aproximou, na festa, após superar, como fabuloso herói, as suas barreiras de timidez, ela o cumprimentou com olhos evasivos, congelantes e pouco interessados, beijou-lhe a face brevemente e seguiu andando para saudar as outras pessoas. Desfilava com rutilante sorriso enquanto ele, que ficava para trás, tinha se perdido em um silêncio pensante; em um silêncio sem dentes, sem dar um passo atrás ou à frente. Perplexo. Nada entendeu daquele inverno que passou por ele, que poucas horas antes se travestia num verão em plenitude. Danou-se. Ao longo da festa, Paulinho tentou umas cinco vezes ensaiar alguma aproximação em que ao menos pudessem prosear um pouco. Não conseguiu uma sequer. Era mais um e não tão competitivo pretendente a quem ela poderia dar especial atenção naquela noite.

Paulinho logo saiu a francesa. Saiu assim de pura vergonha, pois todos sabiam do motivo evidente de sua súbita presença. Por que diabos ela havia me dado o presente e insistido para que viesse à festa? Por que diabos ela me tratou daquele jeito? Pediu que o primo ficasse para aproveitar a comemoração, voltou para casa e se trancou no quarto assim que chegou. Chorando pingos tristes, num olho raiva, noutro frustração, jurava tudo o que não podia cumprir, – vou deixar de amá-la! Vou me curar deste erro em que me meti! Dizia estas bobagens para si mesmo aos soluços embaixo da coberta, como uma criança impotente diante do castigo injusto imposto pelos pais. Paulinho sentia-se absurdamente tomado pela cólera, o corpo doía de tamanha desilusão diante de mais um, dentre tantos descasos dela. Ele os colecionava em sua insistência. A janela do seu quarto era no quinto andar e tinha uma vista para uma rua taciturna e de boas penumbras. Lugar, no mínimo, agradável para presentes e futuros amantes. Enquanto atormentava-se com a paixão fulminada, ouvia vozes de mais um casal que namorava embaixo. Resolveu ir até a janela pedir silêncio porque a alegria daqueles apaixonados lhe agulhava, cada palavra doce dita contribuía para agudar sua amargura, podia sentir imensa inveja do que ouvia baixinho entre sutis risos. E assim que olhou para baixo, fitou-os vendo aquilo que não comportaria jamais em sua imaginação: Gabriela e o primo em busca da felicidade...

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Obra de arte: "Forma enigmática" por Katia Spagnol.

1 comentários:

Citizen disse...
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